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Comet ‘Lovejoy’ entering the Earth’s atmosphere (Foto: Pixabay)

“O ‘normal’ a que ansiamos voltar não é ‘normal’”

Interview with Daniel C. Wahl from Expresso, April 2nd, by CARLA TOMÁS

Perante a crise atual provocada pela pandemia de Covid-19 e a pensar na crise climática, “os governos deviam investir sabiamente para construir uma economia regenerativa local ou regional mais resiliente”, defende o biólogo e ativista Daniel Christian Wahl em entrevista ao Expresso

Aatual crise “está a mostrar-nos como é frágil o castelo de cartas da economia global que está a matar o planeta”, diz Daniel Christian Wahl. Este biólogo e influente pensador, que se dedica à conservação do equilíbrio do ecossistema terrestre, defende a necessidade de um novo paradigma, assente “no reforço da resiliência comunitária através de economias biorregionais”, para fazer frente à crise climática e à atual pandemia. Esta quinta-feira, às 15h, exporá as suas ideias numa conferência em ‘live streaming’ na Culturgest. Para já lembra que “o ‘normal’ a que ansiamos voltar não é ‘normal’”.

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Foto: Danila Bustamante (Lançamento do livro Design de Culturas Regenerativas, Goethe Institut, São Paulo, Brazil, Março, 2019)

Acha que a natureza nos está a enviar uma mensagem com esta crise pandémica?
Nós somos natureza e uma das principais razões porque nos colocámos nesta alhada é por pensarmos que estamos fora da natureza. Estamos a meio da sexta extinção em massa, com uma perda de biodiversidade cada vez mais rápida e o desaparecimento em cascata de ecossistemas em todo o mundo. É isto que torna a expansão de pandemias mais provável. O nosso estilo de vida hipermobilizado. Voamos para encontros que podem acontecer por videoconferência. Emociono-me ao ver as imagens de médicos de hospitais em Espanha ou Itália a ter de decidir quem vive e quem morre. E sinto-me chocado quando leio que há cinco milhões de crianças a morrer por dia nos países mais pobres porque não têm acesso a água potável. Cada um de nós é cúmplice deste sistema de assassinatos. O ‘normal’ a que ansiamos voltar não é ‘normal’. E esta é uma oportunidade para percebermos isso.

E vamos mudar?
Essa mudança é irreversível. Esta crise está a mostrar-nos como é frágil o castelo de cartas da economia globalizada que usa enormes quantidades de recursos para mover materiais e pessoas em redor do mundo de uma forma que está a matar o planeta. Em relação à atual pandemia, é tempo de os Governos serem honestos e dizerem que as medidas que são agora impostas terão de continuar por provavelmente mais 6 a 12 ou mesmo 18 meses. E é melhor as pessoas habituarem-se a isso.

E porquê a necessidade de se ‘habituarem’?
Porque assim podem criar resiliências locais e regionais para enfrentarem o que aí vem. Cada vez virão menos alimentos e recursos de outros cantos do mundo. No hemisfério Norte é agora altura de lançar as sementes à terra. Eu aconselharia quem tem um jardim ou uma varanda a cultivar umas ervas aromáticas ou cenouras, nem que seja só para se manter são de espírito no confinamento caseiro. Valerá a pena. É uma forma divertida de estar com os filhos e de lhes ensinar alguma coisa sobre cultivo de alimentos.

Também por uma questão de prevenção?
Não temos a certeza de quão seguras são as redes de abastecimento de alimentos. Precisamos de criar comunidades mais resilientes, de regionalizar a produção e o consumo e de dar às pessoas a soberania sobre comida que comem, a energia e água que utilizam. O vírus está de uma forma acelerada a obrigar-nos a fazer estas coisas. Esta é a primeira de muitas outras grandes pandemias neste século e a primeira de muitas disrupções globais neste século. A vida tornou-se muito frágil devido ao nosso estilo de vida ao longo dos últimos 250 anos. E a forma mais sensata de seguir em frente é dar uma resposta às alterações climáticas e ao Covid 19 e seguir o caminho de reforço da resiliência comunitária apostando em prósperas economias biorregionais. Espero que o façamos em solidariedade global. Mas é tempo de nos focarmos nas comunidades locais e na escala regional, para construirmos as infraestruturas que nos possam ajudar a navegar num futuro muito incerto.

Há quem tema que após esta crise, os Governos decidam seguir o caminho do ‘business as usual’. Como levar os líderes a não seguirem esse caminho?
Há muita incerteza e é difícil afirmar o que quer que seja. Como consultor de alguns governos nacionais e regionais em várias partes do mundo,posso dizer que uma pandemia viral sempre esteve entre os cenários projetados. Devemos agir, assumindo que, em último caso, chegamos ao colapso económico e que não será fácil ligar os motores e voltar aos negócios como de costume. Os Governos deviam colocar a funcionar moedas locais ou tê-las prontas em caso de o euro colapsar. O mais provável é que nem o dólar nem o euro sobrevivam a isto. Espero estar errado. Precisamos de nos preparar para ajudar as populações a aceder às suas necessidades básicas ao nível biogerional quando saírem do confinamento.

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O consultor esteve na Culturgest, em Lisboa, no início de março, para o lançamento do seu livro “Design de Culturas Regenerativas”. Foto D.R.

FOTO D.R.

Temos de acabar com a globalização e com o capitalismo como os conhecemos? É aqui que entra o seu conceito de cultura e economia regenerativa?
Durante anos, a economia hiper globalizada tem sido cega perante o facto de o bem estar real de uma comunidade depender mais de relações locais e regionais. No modelo da economia capitalista vigente, a externalização dos custos sociais e ambientais não são tidos em conta. Agora que estamos obrigados a injetar grandes quantidades de dinheiro para enfrentar esta pandemia de covid-19 à escala global, os diferentes governos deviam usar esses investimentos sabiamente para construir uma economia regenerativa local ou regional mais resiliente. E podemos fazê-lo por exemplo produzindo máscaras e proteções individuais para o vírus a nível local ou regional.

Isso pode levar ao ‘cada um por si’?
Claro que não pode ser cada um por si. Não é esse o objetivo. Não teremos uma base moral se não olharmos para o que se passa noutros pontos do globo. Temos de ser solidários. E este vírus vem mostrar-nos que temos um inimigo comum, capaz de fazer a humanidade unir-se e colaborar criando condições para que haja vida.

A conferência desta quinta-feira será por ‘live streaming’. Será a norma no futuro?
Estamos todos a aprender que há muita coisa que podemos fazer sem viajar.

A União Europeia está a trabalhar no Pacto Ecológico Europeu (Green Deal). O que pensa deste pacto e o que lhe pode acontecer em consequência desta crise?
Defendo um Green Deal em que os investimentos devem ser feitos em infraestruturas de energias renováveis, como a eólica e a solar, à escala bioregional e que devem ser as pessoas a deter essas infraestruturas e não as grandes empresas. Também precisamos de reinventar a política agrícola comum, de modo a voltar a apoiar os produtores locais e regionais, que têm um papel essencial como guardiões da saúde do solo, da água e dos ecossistemas. Este pacto é uma grande oportunidade para a inovação transformativa que conduz a uma economia regenerativa que apoia culturas regenerativas locais. Porém, muita da inovação em que se baseia o Green Deal tem na base tecnologia verde que propaga o ‘business as usual’. Isso apenas nos dá lagartas com asas, mas não as transforma em borboletas. A inovação transformativa permite-nos deixar morrer as infraestruturas antigas, que já não nos servem, e construir novas, tal como a lagarta tem de sofrer uma grande transformação para ser uma borboleta.

Será essa uma das mensagens que vai passar na teleconferência desta quinta feira?
Inicialmente a conferência era sobre como reconstruir economias saudáveis com base em economias regenerativas locais. Terá essa a linha condutora, mas como a situação hoje é diferente da de há umas semanas, chegará às pessoas de uma forma diferente. Há uma nova urgência. Há uma nova oportunidade de fazer as coisas de forma diferente na resposta a este vírus. Temos de ligar a resposta à covid-19 à resposta à catástrofe das alterações climáticas. Para implementar os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável temos de ir mais além. Não podemos voltar ao ‘business as usual’.

É um optimista ou um cético face à capacidade de o Homem fazer a escolha certa?
Cito Einstein e digo que sou um pessimista para o século XXI e um otimista para o século XXII. Precisamos de estar conscientes de que aplicar de forma activa a ideia de culturas regenerativas a nível local vai melhorar a nossa qualidade de vida. Mas seria uma visão demasiado colorida pensar que uma mudança destas acontece de um dia para o outro quando devia ter começado há 50 anos. Temos de perceber que só reintegrando-nos, é possível a construção de uma relação saudável da humanidade enquanto natureza. Só assim é possível começar a construção desta catedral em que uma geração começa, uma nova geração continua e provavelmente uma terceira acaba e vê a catedral finalizada. Serão os nossos filhos ou netos que colherão os frutos

Note: Thank you to Carla Tomás from Expresso (Portugal) for letting me re-publish this interview here.

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Daniel Christian Wahl — Catalyzing transformative innovation in the face of converging crises, advising on regenerative whole systems design, regenerative leadership, and education for regenerative development and bioregional regeneration.

Author of the internationally acclaimed book Designing Regenerative Cultures

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Catalysing transformative innovation, cultural co-creation, whole systems design, and bioregional regeneration. Author of Designing Regenerative Cultures

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